Estadão | Vingança tem efeito viciante, mas superar essa dependência é ainda melhor; entenda

Para o psiquiatra americano James Kimmel Jr., dedicado ao estudo sobre vingança, ainda não inventaram um remédio mais eficaz contra esse desejo do que o perdão

O escritor Fabrício Carpinejar, de 53 anos, compara seu primeiro dia na escola, quando tinha 6 anos de idade, à chegada a um país estrangeiro, onde você não conhece ninguém, nem domina o idioma local. Tímido e franzino, ele logo começou a sofrer bullying dos seus colegas de turma. Um dia, os valentões da classe roubaram seu lanche. No outro, o chamaram para a briga depois do horário. Mais adiante, lhe puseram apelidos cruéis, como Freddy Krueger e Jason Voorhees, monstrengos de franquias de terror como A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13. “Já fiquei preso pelos cadarços, de cabeça para baixo, na janela do refeitório”, recorda. “Se não fosse o amor da minha família, não teria força para voltar na manhã seguinte para a sala de aula”.

Décadas depois, a vítima reencontrou seus algozes. Foi na sessão de autógrafos de seu primeiro livro, aos 26 anos. Naquele dia, os valentões agiram como se nada tivesse acontecido, como se fossem os melhores amigos do agora escritor famoso. Entre pedidos de fotos e autógrafos, chegaram a comentar, orgulhosos, que tinham estudado juntos. “Perdi um tempo valioso fantasiando um pedido de desculpas. Sonhava que, um dia, eles teriam consciência de seus atos, reconheceriam o meu valor e se redimiriam das maldades praticadas”, afirma o autor de Deixe Ir, seu 53º livro. “Quem bate, esquece. Quem apanha, não. Não sofra pela conversão de quem o fez sofrer. Ele não está nem aí para o seu trauma. Para ele, tudo não passou de uma ocorrência banal.”

Nos Estados Unidos, o psiquiatra James Kimmel Jr. foi perseguido na adolescência. Os valentões, no caso, eram os garotos da vizinhança. Quando ele tinha 12 anos, sua família se mudou para o interior. No novo endereço, Kimmel tentou fazer novos amigos, mas não conseguiu. Em vez de ser acolhido, passou a ser hostilizado. Entre outros ataques, explodiram sua caixa de correios e mataram seu cachorro de estimação. Espumando de ódio, ele pegou o revólver do pai, subiu na caminhonete da família e saiu no encalço de seus agressores. Quando estava prestes a apertar o gatilho, teve um estalo: “O que estou fazendo da minha vida? É isso o que eu quero para mim: virar um assassino e ser preso?”. Na mesma hora, mudou de ideia e voltou para casa.

Professor da Escola de Medicina de Yale, Kimmel é o autor do livro The Science of Revenge (A Ciência da Vingança, sem publicação no Brasil). Nele, afirma que desejar a vingança de alguém que cometeu uma ofensa ou um dano pode ser tão viciante quanto fumar, beber ou apostar. “Não precisa nem praticar o acerto de contas em si. Basta desejá-lo. Isso já libera dopamina (neurotransmissor associado à motivação e à satisfação). Não por acaso, chamamos esse fenômeno de ‘‘doce vingança’”, explica. “O problema é que o efeito dura pouco. Logo, sentimos necessidade de mais e mais dopamina. Quando a euforia passa, corremos o risco de fazer com que o outro também queira se vingar de nós”.

Segundo Kimmel, 95% das pessoas já sentiram, em algum momento de suas vidas, desejo de vingança. Desses, só 20% levaram a desforra adiante.

Para a psicóloga Liliana Seger, coordenadora do Laboratório de Transtorno Explosivo Intermitente (TEI) do Programa Ambulatorial dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI), algumas pessoas são, em geral, mais vingativas que outras: as inseguras, com baixa autoestima e que sofrem de transtornos de personalidade, como os antissociais, os narcisistas e os paranoides, por exemplo. “Os indivíduos explosivos não têm necessariamente desejo de vingança. Eles explodem na hora, mas, em seguida, se arrependem. Os antissociais, não. São frios e planejam sua vingança em detalhes”, compara. “No mais, a pessoa vingativa sente prazer em fazer o outro sofrer, seja física ou psicologicamente. Quanto mais se vinga, mais sente prazer”.

Se o desejo de vingança produz uma sensação de prazer, o sentimento de ódio causa adoecimento físico e mental. “Confúcio já dizia: se você optar pelo caminho da vingança, faça duas covas. Era o jeito dele de dizer que a vingança, e o ódio que a sustenta, destrói o objeto dela e, também, o seu sujeito. Diria que destrói até mais o sujeito que o objeto”, alerta a psicóloga Andréa Brunetto, autora de Agora Sou Medeia – Não Existe Vingança Sem Ódio (Aller, 2023). “Nem toda pessoa que odeia, se vinga. Mas toda pessoa que se vinga, odeia. A vingança pressupõe o ódio”.

O título do livro de Brunetto faz referência à personagem grega transformada em peça teatral pelo dramaturgo Eurípedes, em 431 a.C. Na obra, Medeia é abandonada pelo marido, Jasão, para se casar com a filha de um rei, Gláucia. Em um ato de vingança, ela mata os próprios filhos para infligir dor e sofrimento ao ex. “O ódio pelo homem que a trocou por outra foi maior do que o amor de mãe”, resume a psicóloga.

Outros personagens célebres pelo desejo de revanche são Edmond Dantès, de O Conde de Monte Cristo (1844), de Alexandre Dumas, e Ahab, de Moby Dick (1851), de Herman Melville. Enquanto o primeiro queria dar o troco nos homens que o mandaram para a prisão, o segundo só pensava em castigar a baleia que lhe arrancou parte da perna.

A melhor vingança é não se vingar

A vingança não é uma doença. Não consta do CID, a Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. Nem figura no DSM, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, considerado “a Bíblia da Psiquiatria”. Mas, e se fosse, teria tratamento? Qual seria a cura para quem planeja revidar um mal sofrido?

A resposta do psiquiatra James Kimmel Jr é, no mínimo, desconcertante: “Muitas das estratégias disponíveis para prevenção e tratamento de dependências químicas, como álcool, drogas e tabaco, e vícios comportamentais, como jogo patológico, também poderiam ser usadas para prevenir e tratar o vício em vingança. A terapia cognitivo comportamental e grupos de ajuda mútua são dois bons exemplos. Mas a ‘cura’ mais poderosa é o perdão”.

Perdoar alguém não significa esquecer o que ele fez. Ou passar uma borracha em cima do que aconteceu. “Não tem como. A memória carrega cicatrizes”, avisa Carpinejar. Para ele, precisamos compreender o perdão como um adeus, e não como um até qualquer dia. “Você perdoa para não querer mais ficar junto. A lealdade, uma vez morta, não ressuscita jamais”. Com a maturidade de quem poderia ter se vingado e não se vingou, dá algumas dicas: “Abandone companhias tóxicas. Sejam amigos, sejam amores. Uma vez já basta. E proteja-se da carência. Você pode acreditar que a sua experiência negativa não foi assim tão ruim. A culpa produz miragens de que o errado é sempre você. Se o outro gritou, é porque você perguntou algo no momento inadequado”.

O perdão faz bem a quem sofreu a ofensa. Disso, não há dúvida. Mas, será que corrige quem cometeu o dano? “O perdão jamais teve a função de educar quem machucou. É um movimento de saúde interior, não um mecanismo de controle moral”, pondera o filósofo René Dentz, autor do livro Existe Liberdade no Perdão? (Appris, 2019). “O que impede alguém de repetir uma agressão não é o perdão recebido, mas uma combinação de limite, responsabilização e amadurecimento. Não podemos confundir perdão com reconciliação. É um equívoco que gera sofrimento. Posso perdoar e, ainda assim, me proteger. Posso desejar o bem do outro sem me expor novamente ao mal que ele cometeu. O perdão não é ingenuidade, é autocuidado”.

Se Carpinejar compara seu primeiro dia na escola à chegada a um país estrangeiro, Kimmel associa o perdão a um remédio – desses que não precisa de médico para prescrever a receita, está disponível gratuitamente a qualquer hora e em qualquer lugar e, o melhor de tudo, não provoca efeitos colaterais ou reações adversas. “Nos sentiríamos bem melhores e nos curaríamos mais rapidamente se o tomássemos com mais regularidade”, aconselha o psiquiatra que criou um aplicativo para celular, o Miracle Court (“Tribunal Milagroso”), e fundou um grupo de ajuda mútua, o Revenge Anonymous (“Vingança Anônima”), para ajudar as pessoas a se recuperarem de seu vício em vingança. “Os efeitos terapêuticos do perdão ainda são incompreendidos e subestimados”, conclui.

Fonte: Estadão

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